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2.5.14

Voracidade

Imagem: Google/Reprodução
Poema: Danízio Dornelles

Autodevoro
teus paradigmas
milimétricos
na geografia dos passos
sobre as pedras

Autodevoro
se te devoro
e me devoro
te devorando

Autodevoro
pelo alto
o azul do teu céu
em nuvens e boca...

Translúcido gozo
onde pássaros
em cores
bebem poesia

Autodevoro-te
Autodevoro-me

num único substrato
da mesma substância
que exclama
almas libertas
em alquimia
corpos acorrentados
em chama

31.1.14

Chama

Poesia/Imagem: Danízio Dornelles
Na madrugada
onde quase tudo é silêncio
espreitam nas janelas entreabertas
as vontades maldormidas

Com suas luzes brancas 
que adentram veias
percorrem
a corrente sanguínea da noite,
que pulsa

Roubam as chaves da quietude
num torvelinho surreal
de cores vivas
sobrepostas à realidade morta

Arte metafísica do encantamento
(platônico por um fio
ou por um fim)
teus cristais de pedra são alamedas
por onde caminho

Sonho que move o mundo
e gira os pedais do tempo
presente estás
como uma utopia
que escorre entre os dedos

como um quadro psicodélico
do amor e de si mesmo
como a fosforescência de mundos
entre esses dois olhares
num infinito de luas
que só as noites compreenderão

30.11.13

Do brilho quente de estrelas em janelas frias

Imagem: Noite estrelada sobre o Rio Ródano, de Van Gogh
Poesia: Danízio Dornelles
nas horas mortas
o punhal da noite
fere os olhos das estrelas
(que choram brilho)

luz de contemplação
amor vivo que respinga
e escorre pelo corpo do tempo

e pelas janelas frias 
destas horas mortas
o que vem do espaço
são como passos
adentrando portas

há anos-luz é assim:
o incontido afago
sem volta
se desprende
da retina do universo
para morrer estopim

sucumbe na busca
de outra quimera
nas janelas e bocas
nos sonhos dos loucos
que deste brilho
fazem seu fim

15.11.13

Eterno depois

Imagem: Fauna in La Mancha - Vladimir Kush
Poesia: Danízio Dornelles
insólito relâmpago
corta em fio
um retalho da tarde:
primavera arde
como brasa suspensa
no corpo do vento

tudo viceja.
tudo colore.

no brilho opaco
da parede morta
sombras se beijam
com bocas em flor

nas portas, alamedas:
porta-retratos de pele
sementes e grão.

esparsas silhuetas
de almas andantes
sedentas de mundo
famintas de pão

quantos sóis de silêncio
até o amanhecer do tempo
diluir-se em dois?
quanto caminho,
diurna promessa?

(infinita presença
no eterno depois)

10.6.13

Jemah

Imagem: Google/Divulgação
Poesia: Danízio Dornelles
Uma centelha de mundo
acende os olhos do homem
que beija o calor fecundo
do fogo que lhe consome

Haverá sonoro apego
por entre as flores da morte
por entre as cores do medo
a busca incerta do norte

Quebra a rima, não importa
depois emenda os pedaços
costura a alma das portas
ao corpo inerte do aço

Escorre a navalha fria
sobre o verbo em carne nua
sangra em delírio a poesia
beijando restos de lua

Cada corpo, um sol errante
a queimar na hora escura
a eternidade do instante
que abstrai toda a loucura

Por entre o final dos tempos
dilui na sombra o caminho
queima o absinto dos olhos
sangra a noite em desalinho

Leia também:
Operário
Fragmento
Anjos
Caminhante
Ligeiro delírio do gosto

28.4.13

Anjos

Imagem: Google/Reprodução
Poesia: Danízio Dornelles
Um anjo inerte
acolheu meu sono,
velando a lágrima
oculta em mar;
um anjo louco
e um pouco santo
em tênis de lona
pôs-se a voar...

Outro descalço
chegou depois:
vergas de terra
por entre os dedos,
falava coisas
sobre divisas,
romper as cercas...
matar o medo...

Vieram tantos,
e tantos mais,
esculpir o tempo,
estático grão;
havia um anjo
da tempestade,
havia um anjo
da escuridão...

Vieram todos,
do mar, da bruma,
da lua rasa,
das flores mortas;
vieram anjos,
(vermelhas pipas)
no céu que habita
por trás das portas...

Leia também:
A razão da poesia
Vida-noite, roda-amor
Breve
Caminhante
Escuridão da poesia

18.2.13

Ligeiro delírio do gosto


Imagem: reprodução/Google
Poesia: Danízio Dornelles
Gosto do gosto que tece
Na boca que inflama,
Do corpo que aquece
Ao mistério da chama,
Do suor que adormece
A palavra que exclama.

Gosto do gosto que bebe
O suspiro que exala,
Do olhar que percebe
O verbo que cala,
Da luz que concebe
O segredo da fala.

Gosto do gosto fecundo
Do teu desvario,
Abismo profundo
Dos olhos em cio,
Desejos do mundo...
Poemas do frio...


Leia também:

15.2.13

Bento


Imagem: Reprodução/Google
Poesia: Danízio Dornelles
Foi-se outro papa
Riscado do mapa
Onde
Noutros tempos
A fúria dos ventos
Rasgava bandeiras
Cuspia fogueiras
Aos pés de Joana...
Foi-se,
Assim de repente
Rumor estridente
O papa, coitado
Na carta marcada
Deu logo o sinal:
Ataque dos mouros!
E logo partiu,
O papa-amigo
Levando consigo
Um pote de ouro...


Leia também:

Pranto

Imagem: desconhecido
Poesia: Danízio Dornelles
Fechar os olhos,
Despertar cada segredo:
Outro dia senti medo
Que a estrela se apagasse,
Que todo o céu se abrisse,
Que escuridão me sorrisse,
E a noite inteira chorasse...


Leia também:
Despedida
Correnteza
Escuridão da poesia
Caminhante
A agonia branca de um poema não-escrito

14.2.13

Breve II

Imagem: desconhecido
Poesia: Danízio Dornelles
O tempo
(quando ele quer)
Repousa por um segundo,
Pra que o poeta veja o mundo
Nos olhos de uma mulher;
Depois,
A agonia invade,
Levando o mundo por diante,
Naquele mágico instante
Que os loucos chamam saudade...


Leia também:

5.2.13

Humanos


Imagem: desconhecido
Poesia: Danízio Dornelles
Somos um fragmento de mundo, 
feito vida;
já emergimos do tempo,
sangrando a utopia da palavra
em despedida

Guardamos na lágrima
angústia de mar,
bebemos nas feridas
a cura do incurável:

A noite, impiedosa fada,
há de passar,
trazendo o alforje da sentença.

Somos um fragmento de mundo
em transformação,
opaca sombra, luz da crença,
a perambular no tempo
antes da morte

Somos pedra. 
A vidraça do comum é nosso norte


Leia também:

20.11.12

Caderno Azul

Imagem: desconhecido
Poesia: Danízio Dornelles

Um amigo com um caderno azul
Procura por si
(ou sou eu que ando perdido?)
Procura entre os espinhos
Que, no pátio, eternamente se multiplicam,
Procura nos olhos da menina
(que, escondida no quarto,
busca o refúgio do mundo)...

Um amigo com um caderno azul
Traz calma nas palavras
E tormentas no abismo secreto,
Que é seu interior;
Notas tristes no violão
Para encantar 
Os que já perderam o encanto...

Um amigo com um caderno azul
Procura uma gota de mar,
Mar de Neruda!
Mar de Alfonsyna!
Mar de Vinícius!..
Compõe devaneios reais
Em mundos imaginários,
Empresta suas rosas negras
Para que alguém
Escreva um poema triste;

Um caderno azul e um amigo...
Ambos, por vezes adormecidos,
Em represada fúria da noite interior,
Estão – talvez – lado a lado.
Ambos a procura de si
(ou sou eu que ando perdido?)

17.11.12

Des(a)tino

Imagem: Desconhecido
Poesia: Danízio Dornelles
Coisa da pele
Que sacia,
-Alquimia!
Conduz o delírio
Da loucura:
-Me procura!
Quando o avesso
For metade,
-Me invade!
Quando o céu
For um tormento,
-Desalento...
Sinal pra possuir
A tua chama,
-Que inflama,
O corpo insone
Acorrentado,
-No pecado,
De querer mais
A tua pele,
-Que repele,
Cada vazio
Que adormece,
-Então esquece!
Finge que a carne
Não domina,
-Me ensina,
A cantiga de conter
A dissonância
-Na distância...
O desatino febril
Por onde for:
-Teu amor!..

20.9.12

Vida-noite, roda-amor...

Poesia/Imagem: Danízio Dornelles
I
A vida é roda
Que se movimenta
Ao sopro dos loucos
Que o amor alimenta

II
A noite amanhece
Estrelas fecundas
Sementes de povo
Bandeiras do mundo

III
A roda é sol
Fugaz poesia
Que extrai do farol
A luz da utopia

IV
O amor é brasa
Que sangra o espinho
Semblante de asa
Apego de ninho

16.9.12

Do avesso


Poesia/Imagem: Danízio Dornelles
Faço da pressa do abraço
Um tal recomeço
Que as vezes esqueço
A grandeza do espaço
O céu despedaço
Em alma e apreço
Pagando o preço
Da vida que faço
Assim fortaleço
A utopia no aço
Delírio e cansaço
Nem sei se mereço
Então aconteço
Na tua promessa
E a vida começa
Depois que adormeço

31.8.12

Hotel Minuano

Imagem: divulgação
Poesia: Danízio Dornelles
Alquimizei o tempo
Nos degraus de pedra
Escadas sem mapa
No rumo do céu
O meu infinito
Vestiu em tuas luas
Estrelas mais nuas
Que a noite nos deu

Adormecido sonhei
Acordado vivi
No escuro da luz
No claro do sol
Deixei a promessa
Do andar infinito
Em segredo escrita
No branco lençol

Ficou a utopia
Nas tuas paredes
Secreto poema
Que à alma convém
Parti mas fiquei
Diluído em apreço
No fim do começo
Buscando alguém...

5.8.12

Outono


Poesia/Imagem: Danízio Dornelles
Hoje o vento que sopra é só nostalgia
Tocando meu rosto e o tempo vazio
Adormece o verde em todo o espaço
E só o teu abraço me livra do frio
A brisa noturna trás restos de vida
Na morte das folhas que cobrem o chão
As praças transpiram desejos amantes
Que a cada instante dão vida à estação
E nasce uma flor em pleno outono
Nos olhos morenos da menina-mulher
O canto de paz tem poesia e calor
E aquece o amor quando o inverno vier
Cai o sereno sob o céu de abril
E uma estrela perfeita se perde no céu
Tua lembrança é o tempo que vem me aquecer
E eu, sem saber, me perco também

Breve


Poesia/Imagem: Danízio Dornelles
Pra cada dia, um poema,
Pra toda noite, uma dor,
Pra toda dor, uma morte,
Pra cada morte, um amor!

1.8.12

Luzidio


Poesia/Imagem: Danízio Dornelles
Te espero, estrela insurgente
Luzidio espectro das ruas
Estendo braços ao poente
Na busca secreta por tuas luas
Serás tu de carne ou brasa?
Noturna canção ao desalento
O mundo esguio é feito asa
A vida espreita teu momento
Acende a chama da invernia
Navego assim, por onde for
Vela silente feito alquimia
Suspiro inerte feito amor

Insonofosforescência


Poesia/Imagem: Danízio Dornelles
Insone,
Que cada traço do teu abraço
Alimente o noturno da ausência
Insurgente facho de apego
Que dissolve o tempo feito lua
Na palidez da noite

Teu gesto ,
Calmaria e vendaval
No limiar do afago, que condena
Cúmplice fantasma errante
Inerte ao mundo mais comum
Que ameaça sucumbir antes do dia

Cá,
Deixamos nosso pó
Fragmento de luz
Fluido do amor maior

Além da asa,
Que medita tal encanto
Suspensos por um fio de utopia
Amanhecemos sonho
Amanhecemos povo
Amanhecemos mundo
Somos do antigo,
O que há de novo
E, num segundo
Somos do novo,
Um delírio primitivo