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12.7.13

Nós, os poemas

Imagem: Google/Reprodução
Texto: Danízio Dornelles

Nós, os poemas, deliramos subitamente na alcova das palavras.

Diluímos o verbo não dito no pecado de um beijo ou de um disparo na escuridão. Sangramos lágrima. Choramos suor.

Em carne viva, despimos a vergonha da plenitude.

Nós, os poemas, somos feitos de pelos e quimeras. Fragmentos de utopia. Afagos sinceros e rimas. Ingênuos fados que fascinam.

Entre o gosto e o agosto, um gole de metáfora dilui na noite o que não se dilui na pele. Então nós, os poemas, cantamos às mãos o que não se canta à lua.

Vestimos o gesto que esculpe as ruas. Somos um pouco de todos. Um fragmento de pedra. Uma alquimia de luta.

Porque entre nós, os poemas, não há o absoluto nem o fraterno abstrato. O que não corta, não serve. O que não sangra, não ama.

Anoitecemos, pois, entre estrelas e estrofes. Num céu que conspira em seu matiz de chama.

Leia também:
-A razão da poesia
-Rebeldia II
-Mudança
-Des(a)tino
-Ligeiro delírio do gosto


1.5.13

Operário

Imagem: Muhammed Muheisen/AP
Poesia: Danízio Dornelles
Opaca fuligem por manto,
Suor feito bandeira,
Arrasta-se o tempo
para seu espanto,
Tarda o momento
da hora derradeira...
Minutos por eternidades
perpetuam brados,
a distância de alguém...
E suas mãos-poema
esculpem o fardo,
regando a miséria
que a poucos convém.
Tardam os sonhos florir,
Tarda o mês a findar,
Martelos de carne
que pulsam,
Num coração de mundo
a girar...

Leia também:
Em frente!
Mudança
Extra
21 de agosto
Vermelhas bandeiras

7.3.13

Comemorações sobre a morte de Chávez

Imagem: reprodução/Google
Texto: Danízio Dornelles
Hoje li – indignado – comemorações no Facebook sobre a morte do presidente Hugo Chávez. Depois, com calma, até senti pena. Algumas pessoas são, sim, dignas de pena. E não é pela divergência de opiniões (algo que considero importante), mas pela capacidade de reprodução de um discurso simplório, desses que a gente lê na revista Veja e em outras publicações do gênero. Einstein costumava dizer que duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. O cientista argumentava não estar absolutamente certo sobre a primeira. Eu fico impressionado a cada dia com a expansão da segunda...

Quando percebo que alguns universitários (sim, esses mesmos) abdicam do direito de pensar para simplesmente reproduzir um discurso tosco (aos moldes do que falavam e pensavam os golpistas ao justificarem o AI-5 no Brasil), percebo que a universidade por aqui tem falhado em muitos pontos.

O sistema eleitoral na Venezuela, por exemplo, é considerado um dos mais seguros do mundo. Muita gente não sabe disso ou finge não saber. Lá, além da votação eletrônica, há (simultaneamente) a utilização de cédulas. Alguém já se perguntou se nosso sistema eletrônico é totalmente a prova de fraudes? A leitura biométrica – utilizada em algumas cidades brasileiras na última eleição – já é uma realidade por lá. Recentemente, observadores da Coreia do Sul (repito, do Sul) visitaram a República Caribenha e acompanharam as eleições, com o objetivo de implantar em seu país o mesmo sistema eleitoral. Lá, ao contrário do Brasil, não é obrigatório votar. Contudo, cerca de 80% da população compareceu às urnas na última eleição. Não é estranho que num sistema eleitoral como esse, um “ditador” seja eleito presidente?

O tragicômico da história e ver alguns filhotes da Ditadura – como diria Brizola – agora chamando Hugo Chávez de ditador. 

Para reflexão, deixo um texto do lúcido pensador uruguaio Eduardo Galeano:

“Hugo Chávez es un demonio. ¿Por qué? Porque alfabetizó a 2 millones de venezolanos que no sabían leer ni escribir, aunque vivían en un país que tiene la riqueza natural más importante del mundo, que es el petróleo. Yo viví en ese país algunos años y conocí muy bien lo que era. La llaman la "Venezuela Saudita" por el petróleo. Tenían 2 millones de niños que no podían ir a las escuelas porque no tenían documentos. Ahí llegó un gobierno, ese gobierno diabólico, demoníaco, que hace cosas elementales, como decir "Los niños deben ser aceptados en las escuelas con o sin documentos". Y ahí se cayó el mundo: eso es una prueba de que Chávez es un malvado malvadísimo. Ya que tiene esa riqueza, y gracias a que por la guerra de Iraq el petróleo se cotiza muy alto, él quiere aprovechar eso con fines solidarios. Quiere ayudar a los países suramericanos, principalmente Cuba. Cuba manda médicos, él paga con petróleo. Pero esos médicos también fueron fuente de escándalos. Están diciendo que los médicos venezolanos estaban furiosos por la presencia de esos intrusos trabajando en esos barrios pobres. En la época en que yo vivía allá como corresponsal de Prensa Latina, nunca vi un médico. Ahora sí hay médicos. La presencia de los médicos cubanos es otra evidencia de que Chávez está en la Tierra de visita, porque pertenece al infierno. Entonces, cuando se lee las noticias, se debe traducir todo. El demonismo tiene ese origen, para justificar la máquina diabólica de la muerte.”



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15.2.13

Bento


Imagem: Reprodução/Google
Poesia: Danízio Dornelles
Foi-se outro papa
Riscado do mapa
Onde
Noutros tempos
A fúria dos ventos
Rasgava bandeiras
Cuspia fogueiras
Aos pés de Joana...
Foi-se,
Assim de repente
Rumor estridente
O papa, coitado
Na carta marcada
Deu logo o sinal:
Ataque dos mouros!
E logo partiu,
O papa-amigo
Levando consigo
Um pote de ouro...


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5.2.13

Humanos


Imagem: desconhecido
Poesia: Danízio Dornelles
Somos um fragmento de mundo, 
feito vida;
já emergimos do tempo,
sangrando a utopia da palavra
em despedida

Guardamos na lágrima
angústia de mar,
bebemos nas feridas
a cura do incurável:

A noite, impiedosa fada,
há de passar,
trazendo o alforje da sentença.

Somos um fragmento de mundo
em transformação,
opaca sombra, luz da crença,
a perambular no tempo
antes da morte

Somos pedra. 
A vidraça do comum é nosso norte


Leia também:

20.12.12

Véspera de Natal

Autor (poesia/imagem): Danízio Dornelles 

O multicolorido das luzes
Para ofuscar a escuridão miserável,
Todos se abraçam!
(Vamos, prove!
Um pouco de ópio não fará mal...)
Esqueça o vazio das mãos estendidas
Do lado de fora das vitrines,
Que agora estão cheias de corpos vazios,
Esqueça o brilho morto
Do olhar perdido sobre a calçada,
Esqueça a esperança
Dos que perderam a fé,
Dos que sabem
Que ninguém virá,
E, se vier, será para poucos...

É tempo de paz!
Paz, para quem consome
A razão da miséria alheia.
Do lado de dentro,
Atrás das portas com grades de ferro,
A espera sagrada é sorvida num cálice de sorrisos;
Lá fora, a infinita tormenta
Não cala, não espera...
Alguém sempre chega,
Antes mesmo de dezembro,
Para consumir frágeis corpos
Pelo caminho frio das calçadas humanas,
Desumanas...
Inocentes sentidos adormecem
Sem saber o porquê...

Feliz Natal!
Brindemos a eles,
Que rastejam sob o papelão imundo
Dos obstáculos diminutos,
Deitados em nosso caminho,
A sangrar a permanente agonia,
A qual, desavisados, chamamos existência...


Leia também:
A estética (dos que morrem) do frio
É demais a Capital!
Uma trégua da fome

30.11.12

Desmundo


Imagem: desconhecido
Poesia: Danízio Dornelles
Comer o pão
que o diabo amassou
no leite derramado
por séculos a fio...

Diabo?

O mal traz a cruz,
sangra a quem convém,
mata em nome do bem...

Acaso alguém

23.11.12

Os olhos de Korda repousam sobre Cuba

Poesia/Imagem: Danízio Dornelles
A Alberto Korda, fotógrafo cubano. Autor da imagem
mais reproduzida no século XX, "el Che"

Insurgente,
um raio penetra a escuridão
e tudo se faz luz

Somos todos pedra,
por onde a utopia esculpe
uma vertigem de luta

Os olhos de Korda
repousam sobre Cuba,
delineiam o novo matiz,
forjam um sentido de povo:

-Nasce uma vertigem de luta
nos olhos de Korda...

Há uma menina
com morenos traços
diante da lente,
corroída madeira
como prolongamento dos braços,
inocentes sonhos,
esvoaçando a face triste,
como se a dor fosse, assim,
uma irmã mais velha.

Os olhos de Korda
repousam sobre Cuba...
Insurgente, um raio lhe desperta
uma utopia lhe governa,

Korda não mais adormecerá.

5.10.12

Parasita Político

Texto/Imagem: Danízio Dornelles (inspirado em Gog, Brasil com P)
Parasita público, político profissional, proíbe protestos, pronunciamentos populares. Por quê? Para permanecer plantado pelo poder. Parasita procura pessoas pobres. Prefere plantar problemas, pro político podre percorrer pequenos postos, prometendo pretensa perfeição. Parasita por perto: parte problema, parte projeto!

Pecado: partido político! Planos: panfletagens, passeatas pro povo prosseguir pensando pequeno. Psicologia: permanecer poderoso pela posteridade. Promessas: pintar praças, prorrogar parcelas, produzir pontes pra população periférica.

Parasitas puxam para perto pessoas puras. Proclamam "próximo pleito pretendo prejudicar poderosos". Piada pronta, porque poderosos partilham pão produzido pelo povo pobre. Parasitas políticos protegem poderosos, prostituem população, pisam pesado povo paciente.

Publicam panfleto pedindo pressa para problemas populares. Palhaçada! Problemas populares possibilitam para parasitas permanecerem pendurados pelo poder. Pleito por perto, parasita político percorre portas, promete paralisar problemas, promover projetos populares, paixão pelo povo, pequena parcela para proveito próprio.

Pós-pleito, problemas permanecem. Parasitas persistem pedindo pro povo "paciência... paciência...".

Para parasita perder poder, precisa processo pesado, passo perfeito, poderosas páginas. Passado promíscuo, presente podre: parasita, porém, permanece. Para pobre permanecer preso, precisa poucas provas: pão, presunto... pegou pedaço por participante pobreza, permanecerá presidiário - padecer primitivo - por período prolongado, previsto pelos planos perversos, predeterminados pelos próprios parasitas públicos.

Parasita pensa "povo politizado pode produzir poder paralelo"...

Perfeito! Poder paralelo possibilitaria pensamento participativo para população, pelo proveito plural, pelo próximo, para pisotear permanentemente pequenas pestes parasitárias, párias pelo passado punidos pelo presente.

Peguei pesado? Paciência!

19.9.12

Farrapo do Tempo


Poesia: Danízio Dornelles
Imagem: Aline Peters
Silêncio, pois nessa hora
Em que tremulam bandeiras
Pilchas em falsos campeiros
Terrunhos da boca pra fora
Silêncio, porque agora
Faço em versos minha vigília
Enrubeceu-se a coxilha
Com mesclas de vento norte
Abrindo um manto de morte
Na alma dos Farroupilhas

Homens, mulheres, crianças
Sentindo o frio do rancor
Ofertando a própria dor
No sangue que aquece a lança
No horizonte, uma esperança
Pra quando a guerra acabar
Mesmos sonhos pra sonhar
Sorvendo a mesma incerteza
Sem ter pão na sua mesa
Sem ter rancho onde morar

Assim eram os Farrapos
Que a história apagou o nome
Maior inimigo – a fome
E os supremos desacatos
Cobrindo o corpo com trapos
No peito, anseios profundos
E os sonhos, que são fecundos
Nos que só colhem misérias
Não alcançam as artérias
Dos que dirigem o mundo

Pois quando os chefes locais
Reculutavam infelizes
Iam abrindo cicatrizes
Nos supostos ideais
E até mesmo os generais
No fulgor da autoridade
Ao conclamar: “Liberdade!”
De alma e punho cerrados
Sacrificavam os soldados
Em troca da propriedade

Serão heróis os covardes
Que lutavam pela plata
Será herói quem maltrata
E age com notoriedade
Aos ranchos pobres invade
Buscando o que ali não hay
Herói é aquele que vai
Trilhando estranhos caminhos
Sem levar nenhum carinho
Nem mesmo a bênção do pai

Por isso chamo valentes
Aos ancestrais de minha raça
Que não se encontram em praças
Nem nas molduras latentes
Mas que deixaram sementes
Plantadas sobre a coxilha
E chamo, sim, Farroupilhas
Aos herdeiros do abandono
Não sendo nem mesmo donos
Das garras de sua encilha

Então, ao invés de gritos
Rondas ou fogo-de-chão
Entrego meu coração
Pela alma dos aflitos
E, nesse gesto contrito
Minha voz é clarim de guerra
O instinto em meu peito encerra
A defesa de nossa origem
E os Farrapos que ainda vivem
Sem ter um palmo de terra

17.9.12

Vermelhas Bandeiras


Poesia: Danízio Dornelles
Imagem: desconhecido
É tempo
De toda esta gente
Ser fértil semente
Ser voz e ser povo
Tempo
De ocupar espaços
Estendendo os braços
Abraçando o novo

É tempo
Do fim dos conchavos
Os sonhos escravos
Já rompem correntes
É tempo
De ser esperança
Saber que a mudança
Depende da gente

É tempo
De campo e cidade
Mudar de verdade
A antiga herança
É tempo
De flores inteiras
Vermelhas bandeiras
De um povo que avança

28.8.12

É demais a Capital!

Imagem: desconhecido
Poesia: Danízio Dornelles
Lindo desde ontem
o pôr-do-sol...
Só a fome,
debaixo da ponte,
não tem ocaso.

Homens de negócios
transitam;
Crianças de pele e ossos
permanecem,
São parte da paisagem oculta
Aos olhos fechados
à miséria do mundo...

Porto Alegre é demais!

Prédios buscam o céu,
na terra falta pão.
A miséria em lentas horas
consome diminutas mãos...
Os olhos se estendem,
como galhos vazios
a espera de flor,

Centavos por sorrisos fugazes..

Motores aceleram,
Cortam o vento, cortam a noite
Derramam o gozo
no luxo dos monstros
de ferro e cimento...

Porto Alegre é demais!

19.7.12

Comum é o sonho de tod@s

Poesia/Imagem: Danízio Dornelles
Bebi o vento dos Andes
Que a fronteira não separa
De Sandino a Guevara
Latinidades iguais
O amor só vence a morte
Quando a vida vence a fome
E a miséria se consome
Pela luz dos ideais

Meu canto
É uma bandeira cor de sangue
Que a ira dos covardes
Nunca pode silenciar
Brotei das flores
Das sementes fecundadas
Pelas almas mutiladas
Que morreram a lutar

Canto insurgente
América em rebeldia
No luar da poesia
Das enxadas sobre a terra
É a verdade dos humildes
Quando o sonho adormecido
Querendo ganhar a vida
Pela fome entra em guerra

Se vem do povo
A tempestade rasga a noite
E os escravos dos açoites
Fecundam a madrugada
Ao novo dia
Novo mundo em tons febris
Já não há mãos infantis
Pedindo pelas calçadas

3.7.12

Mudança


Imagem - França, Maio de 1968
Poesia - Danízio Dornelles

Passam os passos
em descompasso...
O povo tem pressa,
ocupa a praça!
Não há aço
que impeça,
não há promessa
ou ameaça
que desfaça
a crença.
A bandeira presença
(que rubra floresça)
conduz a esperança
que a morte padeça,
que o sonho renasça,
que tudo aconteça
no então recomeço
do braço
que abraça,
na vida que avança,
tomando o espaço
de crer que a mudança
agora aconteça
e que o sol permaneça
insurgente pedaço.

30.5.12

Ainda vivo, senhora!

Autor:
Imagem - Hector Retamal, durante protesto de estudantes em Santiago, por educação gratuita para todos (25/04/2012)
Poesia - Danízio Dornelles
Sob a pele castigada,
Distante das matilhas
(Ferozes quadrilhas,
do povo, algozes)
Ainda se pode amar!
Ainda bandeira!
E, embora não queiras,
me atrevo a sonhar...
Entrego a utopia,
Sangue, poesia...
Da vida ao instante,
Na luta e na crença,
A eterna presença
dos mortos de antes.

28.5.12

O vestido da morte


Autor:
Imagem - desconhecido
Poesia - Danízio Dornelles
O vestido da morte se arrasta pela terra
Escurece os olhos das searas repartidas
Amarra corpos com os fios dos alambrados
Semeia a fome sobre a terra prometida

O vestido da morte é escuro como a noite
Carrega a poeira dos decretos assassinos
Quando escurece vem beber o sangue alheio
Na condição que a ganância determina

Em cada enxada que emudece sobre a terra
Fica a semente da partilha, adormecida
Seguem na estrada, contra o vento e a cobiça
Atrás a morte, arrastando seu vestido

E pelos rastros de quem parte, de quem fica
Há uma certeza feito carne, feito prece
Os alambrados são o sustento da morte
Que veste o luto daqueles que anoitecem

25.5.12

Uma trégua da fome

Autor:
Imagem - Aparício Reis
Poesia - Danízio Dornelles
Vai um menino caminhando pela rua
E sua dor é bem maior que a escuridão
Porque nas pedras que pisa lentamente
Morre a semente de outra geração

Tudo que havia era um pedaço de vida
Nas mãos inocentes querendo viver
Pedindo nas praças, nas portas fechadas
Nos carros parados, pelo anoitecer

Tudo o que havia era um fio de esperança
Nos olhos escuros de um menino de rua
A fome de amor, pior que a de pão
Perdeu a razão e cantava pra lua

Tudo o que havia eram flores nubladas
Ambição, desamor e ausência de paz
Um menino de rua morre de repente
Um sonho inocente, então, se desfaz

E os homens prometem às mães dos meninos
Traze-los de volta em decretos vazios
Como se a ganância descesse do trono
Pra salvar do abandono os que morrem de frio

À sombra das casas com grades de ferro
A inocência padece e a morte consome
É a infância das flores na luz da agonia
Clamando em poesia uma trégua da fome

Do DVD XIV Fecanpop
L: Danízio Dornelles / M: Vitor Mülling
Premiada como melhor conjunto instrumental

8.5.12

A Senzala era um Poema

Autor:
Imagem - divulgação/filme Amistad (1997)
Poesia - Danízio Dornelles
"Serão heróis os covardes
que sangraram a liberdade?
Nas charqueadas, nos engenhos,
nos templos de oração,
Os homens dobravam joelhos,
faziam preces a Deus,
Depois matavam os seus,
pra manter a escravidão..."

A senzala era um poema – incompreendido e inerte,
Silenciada por grilhões na escuridão do vazio...
E a chibata dos covardes (ante os gritos de agonia),
Semeava hipocrisia desde os porões dos navios...

E os negros adormeciam porque a dor os obrigava!
A senzala era um poema e seus versos, dissabores;
A morte na pele escura clamava outros sacrifícios,
Pra que seguisse o ofício e a ganância dos senhores.

A senzala era um poema e sua estrofe, a confidência
Dos filhos que nasceram ao martírio condenados;
Nos açoites assassinos, suor e sangue sobre a terra:
É a vida que se encerra na indigência dos tratados!

Pele negra, a tempestade – tanta morte a cada vida,
Os cativos juntam restos – e é tão injusta a justiça...
A senzala era um poema e em seu desfecho anunciado
Morreram os mutilados e prosperou a cobiça...

28.4.12

Tempo do Trabalhador

Autor: (poesia/imagem): Danízio Dornelles
O cinza da vida
Extrai um raio de luz 
Dos olhos do trabalhador,
Perpetua a esperança inacabada,
Na calosidade das mãos,
Na rigidez do tempo,
Na miséria paga pela força
Que não tem preço...
O cinza da vida
Extrai uma gota de suor,
E outras mais,
E tantas mais,
Que se desprendem
De um corpo cansado,
Fecundando o mundo
De obreiros sonhos,
Milhões de silêncios,
Milhões de braços,
Veias e músculos,
Sangue que não tem pátria
Ou fronteira.
A vida escorre generosa
Na face do trabalhador,
Irriga-lhe os sulcos do rosto
Em desmedida quietude,
Como o tempo
Dos que não tem tempo.
Um raio de sol
Penetra-lhe a visão desperta,
Cinge-lhe o corpo
Um calor de brasa e ventania:
No martelo de ferro
E nas mãos de carne
repousa o mistério
De um novo tempo.

23.3.12

A estética (dos que morrem) do frio

Autor:
Imagem - desconhecido
Poesia - Danízio Drnelles
Tão belo
o frio que espero!
Não fosse a agonia da carne,
os lamentos mudos que se fundem
no vazio da madeira apodrecida;
Um assovio a mutilar os corpos,
sob a indiferença que flutua calmamente
entre a vida e a estupidez...

Tão belo
o frio que espero!
Não fossem os corpos desnudos
entregues à estética da geada,
não fossem as pequenas mãos
que viraram pedra,
os pequeninos olhos
que perderam o brilho,
os lábios cerrados
que choraram pão...

Tão belo
o frio que espero!
Não fosse a desgraça materna
de plantar na terra
o fruto inocente,
o beijo guardado
em flor e semente,
os trapos que cobrem
o que a vida deixou...