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7.4.13

Noturno por Dom Ferreira

Imagem: Google/Reprodução
Poesia: Danízio Dornelles
Inspirado no espetáculo Terras de Fronteira, de Charles Ferreira

Densa morte,
estúpida sina
margeia a alma liberta
fez-lhe, o tempo, pergaminho
trouxe a vida, o desafeto

Cintila páginas
em ferida
pesada neblina
em remorso
restos de noite, perdidos
rangem sinistros nos ossos

Dom Ferreira
a tempestade
é lágrima em desvario
olhos presos no infinito
morre a alma
em assovio

Num fim de tarde,
esquecido
corda presa
em céu suspenso
Dom Ferreira beija a morte
no colorado de um lenço

Que amor terá nos olhos?
que poema
ainda lhe encanta?
amarra a corda em silêncio...
queima a agonia na pampa...

Haverá um fio de esperança
fagulha inerte do frio
curando
a alma do homem
cruzando
as águas do rio

Leia também:
A razão da poesia
Breve
A Noiva
O copo
A noite ser

7.3.13

Comemorações sobre a morte de Chávez

Imagem: reprodução/Google
Texto: Danízio Dornelles
Hoje li – indignado – comemorações no Facebook sobre a morte do presidente Hugo Chávez. Depois, com calma, até senti pena. Algumas pessoas são, sim, dignas de pena. E não é pela divergência de opiniões (algo que considero importante), mas pela capacidade de reprodução de um discurso simplório, desses que a gente lê na revista Veja e em outras publicações do gênero. Einstein costumava dizer que duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. O cientista argumentava não estar absolutamente certo sobre a primeira. Eu fico impressionado a cada dia com a expansão da segunda...

Quando percebo que alguns universitários (sim, esses mesmos) abdicam do direito de pensar para simplesmente reproduzir um discurso tosco (aos moldes do que falavam e pensavam os golpistas ao justificarem o AI-5 no Brasil), percebo que a universidade por aqui tem falhado em muitos pontos.

O sistema eleitoral na Venezuela, por exemplo, é considerado um dos mais seguros do mundo. Muita gente não sabe disso ou finge não saber. Lá, além da votação eletrônica, há (simultaneamente) a utilização de cédulas. Alguém já se perguntou se nosso sistema eletrônico é totalmente a prova de fraudes? A leitura biométrica – utilizada em algumas cidades brasileiras na última eleição – já é uma realidade por lá. Recentemente, observadores da Coreia do Sul (repito, do Sul) visitaram a República Caribenha e acompanharam as eleições, com o objetivo de implantar em seu país o mesmo sistema eleitoral. Lá, ao contrário do Brasil, não é obrigatório votar. Contudo, cerca de 80% da população compareceu às urnas na última eleição. Não é estranho que num sistema eleitoral como esse, um “ditador” seja eleito presidente?

O tragicômico da história e ver alguns filhotes da Ditadura – como diria Brizola – agora chamando Hugo Chávez de ditador. 

Para reflexão, deixo um texto do lúcido pensador uruguaio Eduardo Galeano:

“Hugo Chávez es un demonio. ¿Por qué? Porque alfabetizó a 2 millones de venezolanos que no sabían leer ni escribir, aunque vivían en un país que tiene la riqueza natural más importante del mundo, que es el petróleo. Yo viví en ese país algunos años y conocí muy bien lo que era. La llaman la "Venezuela Saudita" por el petróleo. Tenían 2 millones de niños que no podían ir a las escuelas porque no tenían documentos. Ahí llegó un gobierno, ese gobierno diabólico, demoníaco, que hace cosas elementales, como decir "Los niños deben ser aceptados en las escuelas con o sin documentos". Y ahí se cayó el mundo: eso es una prueba de que Chávez es un malvado malvadísimo. Ya que tiene esa riqueza, y gracias a que por la guerra de Iraq el petróleo se cotiza muy alto, él quiere aprovechar eso con fines solidarios. Quiere ayudar a los países suramericanos, principalmente Cuba. Cuba manda médicos, él paga con petróleo. Pero esos médicos también fueron fuente de escándalos. Están diciendo que los médicos venezolanos estaban furiosos por la presencia de esos intrusos trabajando en esos barrios pobres. En la época en que yo vivía allá como corresponsal de Prensa Latina, nunca vi un médico. Ahora sí hay médicos. La presencia de los médicos cubanos es otra evidencia de que Chávez está en la Tierra de visita, porque pertenece al infierno. Entonces, cuando se lee las noticias, se debe traducir todo. El demonismo tiene ese origen, para justificar la máquina diabólica de la muerte.”



Leia também:

15.2.13

Pranto

Imagem: desconhecido
Poesia: Danízio Dornelles
Fechar os olhos,
Despertar cada segredo:
Outro dia senti medo
Que a estrela se apagasse,
Que todo o céu se abrisse,
Que escuridão me sorrisse,
E a noite inteira chorasse...


Leia também:
Despedida
Correnteza
Escuridão da poesia
Caminhante
A agonia branca de um poema não-escrito

5.2.13

Humanos


Imagem: desconhecido
Poesia: Danízio Dornelles
Somos um fragmento de mundo, 
feito vida;
já emergimos do tempo,
sangrando a utopia da palavra
em despedida

Guardamos na lágrima
angústia de mar,
bebemos nas feridas
a cura do incurável:

A noite, impiedosa fada,
há de passar,
trazendo o alforje da sentença.

Somos um fragmento de mundo
em transformação,
opaca sombra, luz da crença,
a perambular no tempo
antes da morte

Somos pedra. 
A vidraça do comum é nosso norte


Leia também:

27.1.13

O beijo da morte

Imagem: desconhecido
Poesia: Danízio Dornelles
A opaca figura
do grande ceifador
sorriu...
Sem negra peste,
escura fumaça
lhe serviu de foice.

Agonia, 
beijo de fogo
da morte.
A sorte?
Andava avulsa, 
noutro rumo,
ao norte...

E todos, enfim,
fugazes atores,
crianças,
que ainda somos,
choramos as dores
do que não fomos...

Estranho fim
da vida,
diluída
em gritos e fogo;
Tenra existência
como se a morte
fosse um jogo
onde se perde
cada inocência.


Leia também:
A noiva
A noite ser
O copo

5.8.12

Breve


Poesia/Imagem: Danízio Dornelles
Pra cada dia, um poema,
Pra toda noite, uma dor,
Pra toda dor, uma morte,
Pra cada morte, um amor!

19.6.12

A Noiva

Imagem: desconhecido
Poesia: Danízio Dornelles

Afastem a noiva do meio da estrada,
Que eu quero, calado, passar e passar...

Afastem a noiva de vestido escuro,
Que a fé, o futuro, pretendo salvar...

Não quero seu beijo (buquê de espinhos),
Só quero, sozinho, poder caminhar.

Afastem a noiva que há tempos me espera,
Que nem toda a fera se pode amansar!

Afastem a noiva da treva escura,
Que chega, procura, e fica a chamar...

O enlace é eterno, ninguém mais separa,
E o tempo repara as feridas da vida.

Afastem a noiva, a noiva secreta,
Que fez-se de poeta e beijou Alfonsina!

Afastem a noiva calada e sombria,
Que o amor inicia o que à noite termina...

Dança


Imagem: Hospital-Colônia de Oliveira (Arquivo Público Mineiro)
Poesia: Danízio Dornelles

Na madeira apodrecida,
Vidros quebrados;
A ferrugem cobre o aço...
Corpos dormentes
rasgam a noite em devaneios...
As agulhas, sem receio,
rompem a pele dos braços

Um homem segue vivendo
Porque alguém o esqueceu

A vagar nos corredores
A noiva – vestido negro
Busca pares para a dança

Mas entre alguns recusados
Fitando ao longe os eleitos
Figura estranho despeito
Pois já não há esperança

A noite é a hora do enlace
Quando suas aias – as doenças
Castigam as frágeis crenças
No sacrifício fatal

Se os corpos adormecerem
Na estática do vazio
Restará o ósculo frio
Brindando o ato final


18.6.12

A Noite Ser


Imagem: La Noche de los Pobres, de Diego Rivera
Poesia: Danízio Dornelles


É uma arte tão confusa
Ser noite além da tristeza,
Sorrir do íntimo pranto,
Buscando na dor, beleza...

Haverá vida e poesia
Na escuridão mais completa?
Nos cadáveres de pedra
Há muitas vozes de poetas!

É um mistério estar vivo,
E cantar o que se chora,
Beijar os lábios da morte,
Pedindo que vá embora!

E ver fantasmas da terra
Nas metáforas marcadas,
Cantando doces sonetos
Para as rosas mutiladas...

É um segredo incompreendido
Querer da flor, o espinho,
Ofertar o amor às trevas
Seguir a noite, sozinho...

Ser noite é viver de abismos,
Por entre sombras vazias,
Sangrando a extinta chama
Do olhar que lhe sorria!

É reencarnar o que está morto
Na cruz de alma singela,
E agonizar entre os vultos
Que espreitam além da janela.

Ser noite é mais do que o dia:
É ter sonho peregrino,
É brindar veias abertas,
À luz de um novo destino.

8.6.12

O Copo


Autor:
Imgem - desconhecido
Poesia - Danízio Dornelles

(a um poeta morto)

Inerte, cheio de vazio,
Feito a alma do poeta...
Que bebe a ausência secreta,
Do calor de quem partiu.

Em seus destinos iguais:
Um é amargo e sereno,
O outro bebe o veneno
Que conduz ao nunca mais...

A fonte, já sem valia,
Espelha o corpo profano;
Cortado pelos minuanos,
Sonha ver a luz do dia.

Quando emana o desamor
Nos deserdados da sorte,
Sorvem a essência da morte
Pensando beijar a flor.

Na madrugada silente
Acharam o cristal quebrado,
E flores amareladas
Velando a dor de um ausente!

Sob um canto já sem luz,
Sucumbe a mera existência
E no copo, a transparência
Reflete agora uma cruz.

Quem foi e quem seria,
O corpo ali tombado?
Talvez um homem calado,
Transbordante de poesia

Partiu a alma, liberta,
Restou o copo em pedaços,
E quatro luzes escassas,
Pra iluminar o poeta...

28.5.12

O vestido da morte


Autor:
Imagem - desconhecido
Poesia - Danízio Dornelles
O vestido da morte se arrasta pela terra
Escurece os olhos das searas repartidas
Amarra corpos com os fios dos alambrados
Semeia a fome sobre a terra prometida

O vestido da morte é escuro como a noite
Carrega a poeira dos decretos assassinos
Quando escurece vem beber o sangue alheio
Na condição que a ganância determina

Em cada enxada que emudece sobre a terra
Fica a semente da partilha, adormecida
Seguem na estrada, contra o vento e a cobiça
Atrás a morte, arrastando seu vestido

E pelos rastros de quem parte, de quem fica
Há uma certeza feito carne, feito prece
Os alambrados são o sustento da morte
Que veste o luto daqueles que anoitecem

23.3.12

A estética (dos que morrem) do frio

Autor:
Imagem - desconhecido
Poesia - Danízio Drnelles
Tão belo
o frio que espero!
Não fosse a agonia da carne,
os lamentos mudos que se fundem
no vazio da madeira apodrecida;
Um assovio a mutilar os corpos,
sob a indiferença que flutua calmamente
entre a vida e a estupidez...

Tão belo
o frio que espero!
Não fossem os corpos desnudos
entregues à estética da geada,
não fossem as pequenas mãos
que viraram pedra,
os pequeninos olhos
que perderam o brilho,
os lábios cerrados
que choraram pão...

Tão belo
o frio que espero!
Não fosse a desgraça materna
de plantar na terra
o fruto inocente,
o beijo guardado
em flor e semente,
os trapos que cobrem
o que a vida deixou...

10.3.12

Golpe

Autor (poesia/imagem): Danízio Dornelles
É condenável sonhar
amar
e amanhecer,
Viver é sobreviver,
Latinoamérica em sangue
Tempo sem despedida
Fria navalha de escuridão
a cortar poemas,
Tempo dos sem tempo,
Vã resistência,
Ousar lutar,
Ousar viver
a ousadia de sonhar,
a utopia de querer...

Vida por um fio,
Desvario!
Das madres, orações,
Gemidos que se fundem,
Agonia nos porões,
Corpos na noite
escondidos,
Canções contra o metal,
Estrofes versus decretos,
Poemas: desaparecidos,
Arquivos: secretos...

Arrancar do cimento
os ossos da História,
Sepultar a memória
do esquecimento.

25.2.12

Vivo

Imagem: desconhecido
Poesia: Danízio Dornelles
Parnaseio psicodramas, tramas,
Da rima à obra prima, passo longe de tudo,
Me perco no vazio que me consome,
Arranco os pedaços da poesia
Que, em sangue, caem no papel!
Morro todos os dias em brancas páginas,
Na agonia que agita a cidade.
Só as pedras,
Somente elas não podem voar.


Leia também:
O beijo da morte
Escuridão da poesia
Nudez

5.2.12

Existencial


Autor (poesia/imagem): Danízio Dornelles
Sempre que posso,
sem remorsos, ainda penso
que a vida é um céu imenso
e a morte é como breu;

Quando não posso,
entristeço, despedaço,
A agonia é meu espaço
mais humano, existencial...

A liberdade,
que por horas me condena,
ainda creio, vale a pena,
mesmo sendo o grande mal

No descaminho,
que caminha indiferente
cada morte – uma semente
toda flor – um temporal.


Leia também:
Breve
O misticismo do frio
Vivo
O pecado da nudez
Caminhante

10.1.12

Morte de Amanda

Autor (poesia/imagem): Danízio Dornelles


Morri, mas não aos poucos,
Morri de morte, simplesmente...
Dessas que a gente sente
Doer na carne, entre os ossos,

Morri de estranha morte
Tão logo amanheceu
E uma nuvem sangrou o céu,
Com o escuro de suas cores,

Cores, tantas cores!
Sob o anil esmaecido deste céu febril
Que, lentamente, se derrama,
Metamorfoseando a vida
Numa vertigem qualquer...

Morri entre a luz dos fios compridos
E a verdade mais humana, miserável
Na espera pela curta solidão,
Que amo,
Na busca pelos olhos libertos,
Libertinos,
Que, como pássaros noturnos,
Sangram meu céu interior

28.12.11

21 de Agosto

Imagem: desconhecido
Poesia: Danízio Dornelles
Para Elton Brum
Um homem desaba sobre a terra
E em suas mãos não há uma bandeira sequer,
Não há um grito sequer;
O desespero escorre pela garganta de outros,
Borbulha,
Flameja,
Ecoa
E chora...
Cada morte se subdivide
Numa coletividade que sonha com a vida.
Terra, que mais queres de teus filhos?
Se o alimento mais puro se derrama sobre ti,
Em holocausto àquele que agora adormece...
Um homem desaba sobre a terra:
A morte, sem remorsos, chega pelas costas
E sorri seu riso macabro.
Sabemos o que ela quer
E a quem representa...
Terra, que mais queres de teus filhos?
Se teu ventre infértil não abriga a semente,
Se tuas distâncias só alimentam a fome,
Se toda morte é apenas um poema silencioso,
Silenciado...
Um homem desaba sobre a terra
E em suas mãos não há uma bandeira sequer;
Terra, que mais queres de teus filhos?